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Efeitos colaterais dos tratamentos oncológicos e manejos nutricionais para amenizá-los

Quando falamos sobre câncer e seus tratamentos, a grande maioria da população lembra dos efeitos colaterais. Náuseas, vômitos, falta de apetite, diarreia ou constipação são os mais conhecidos e também bastante comuns. O que talvez poucos saibam é que, através da Nutrição, é possível amenizar esses efeitos, tornando o tratamento mais tranquilo e suportável para o paciente.

Neste artigo tenho o objetivo de orientar sobre o manejo da alimentação frente aos possíveis eventos adversos de acordo com a terapia antineoplásica, contribuir para melhor qualidade de vida e melhor tolerância ao tratamento proposto.

Tratamentos e seus efeitos adversos

Os efeitos colaterais do tratamento oncológico (radioterapia, quimioterapia, cirurgia e transplante de medula óssea) estão associados com algum grau de disfunção gastrointestinal, com consequente redução da ingestão de alimentos e adicional perda de peso. Os principais são:

  • Náusea
  • Vômito
  • Disgeusia (alteração ou perda do paladar)
  • Xerostomia (baixa produção de saliva)
  • Mucosite
  • Obstipação
  • Diarreia
  • Neutropenia (nível muito baixo dos neutrófilos, um tipo de glóbulo branco)

Pacientes portadores de câncer de cabeça e pescoço e que estão em tratamento com a radioterapia apresentam mais alterações gustativas (80%-60%) do que outros grupos, devido ao tratamento apresentar efeito destrutivo dos tecidos sensoriais como cavidade oral, língua, glândulas salivares, nervos associados ao paladar e ao olfato.

Já os pacientes submetidos à quimioterapia também podem apresentar diminuição da sensibilidade, com gosto metálico ou amargo na boca, que tem sido associado a medicamentos antineoplásicos como ciclofosfamida, doxorrubicina, 5-fluoracil, metotrexato e cisplatina.

A cirurgia oncológica, dependendo da localização do tumor, também apresenta alterações em todo o sistema digestivo, podendo também levar à dificuldade de mastigação e /ou deglutição, azia, síndrome de Dumping, cólicas, flatulências, sensação de plenitude ao se alimentar, entre outros.

Já os pacientes que realizam transplante de medula óssea, somado aos efeitos gastrointestinais, podem apresentar desordens hepáticas, problemas genito-urinários e predisposição a infecções bacterianas, virais e fúngicas.

No caso da iodoterapia, o paciente pode apresentar hipotireoidismo, boca seca, náuseas e vômitos, dor e irritação do estômago e inchaço e dor das glândulas salivares.

Como manejar os efeitos colaterais através da nutrição

Prisão de ventre

As fibras da dieta estão associadas com benefícios importantes para o funcionamento do organismo. Podem melhorar a saúde, o hábito intestinal e são componentes de grãos, vegetais e frutas que não são digeridos pelo nosso organismo. Passam quase que intactas pelo sistema digestivo e são eliminadas nas fezes. Além disso, recomenda-se manter a hidratação, praticar atividades físicas e fracionar as refeições.

Diarreia

Alguns tratamentos, por atuarem sobre as células sadias que recobrem internamente o intestino delgado e o intestino grosso, fazem com que a eliminação das fezes seja mais rápida. Nesses casos, deve-se priorizar alimentos obstipantes, como arroz branco, banana maçã, peito de frango, limão, maçã e pera sem casca, mandioca, água de coco e biscoito de água e sal.

Náuseas e vômitos

Os vômitos persistentes podem levar a desidratação, desequilíbrio hidroeletrolítico, perda de peso, queda do estado geral, o que pode implicar na suspensão do tratamento. Alguns hábitos podem ajudar os pacientes, como: aumentar o fracionamento das refeições, não ingerir líquidos durante as refeições e em momentos de náuseas, evitar doces concentrados e alimentos e bebidas fortes como café, peixe, cebola, alho ou alimentos muito quentes.

Alguns alimentos são antieméticos naturais e podem ser incluídos na dieta, a exemplo do gengibre, chá de camomila, banana e frutas ácidas.

Xerostomia (boca seca)

Para pacientes que passam pela redução da produção de saliva, é recomendado:

  • Evitar alimentos duros e excessivamente secos;
  • Fracionar as refeições;
  • Aumentar a hidratação diária;
  • Incluir purês, legumes cozidos, caldos, sopas, vitaminas, mingau, sucos nas preparações diárias;
  • Mastigar bem as refeições;
  • Evitar bebidas açucaradas;
  • Evitar alimentos pegajosos;
  • Umedecer alimentos secos com preparações com caldos.

Quando necessário, é possível recorrer ao uso de uma saliva artificial em spray ou gotas que pode ser aplicada duas ou mais vezes por dia para evitar complicações provocadas pela xerostomia.

Mucosite

Esta inflamação da parte interna da boca e da garganta que pode levar a úlceras dolorosas e feridas nessas regiões. Para amenizar os sintomas, a orientação também é fracionar as refeições, aumentar a hidratação, evitar alimentos condimentados e em temperaturas extremas. Além disso, deve-se:

  • Escovar os dentes com pasta contendo flúor;
  • Realizar bochechos com bicarbonato de sódio;
  • Escovar os dentes com escova de cerdas macias;

Pessoas que vão realizar o tratamento radioterápico na região da cabeça e pescoço devem consultar um dentista antes do início do tratamento para saber como preservar os dentes e prevenir a infecção.

Alterações no paladar

Pode acontecer de pacientes relatarem que certos alimentos que eram consumidos de forma habitual passam a não ser mais prazerosos. Para ajudar na alimentação, é preciso adotar práticas para reduzir o desconforto. Algumas orientações são:

  • Utilizar utensílios de vidro para diminuir o gosto metálico dos alimentos;
  • Mascar chiclete de menta sem açúcar ou gengibre para mascarar o sabor amargo ou metálico na boca;
  • Experimentar outras fontes de proteínas, caso as habituais não sejam mais atrativas;
  • Fazer bochechos com bicarbonato de sódio antes das refeições para ajudar a neutralizar o gosto ruim na boca.
  • Manter a boca limpa e saudável, escovando os dentes com frequência.
  • Suplementos de sulfato de zinco podem ajudar a melhorar o paladar.

Neutropenia

De acordo com o tipo ou dose da quimioterapia, a contagem de neutrófilos geralmente começa a cair entre 3 a 7 dias após cada ciclo e chegam ao valor mais baixo, cerca de 7 a 14 dias após o tratamento. Esse é o momento que o paciente está mais vulnerável à infecção.

Portanto deve-se ter bastante atenção à higiene, tanto a pessoal, quanto a de alimentos. O local de preparo das refeições e os utensílios utilizados também devem ser higienizados com cuidado.

É preciso evitar o consumo de alimentos com alto risco de contaminação que não possam ser higienizados adequadamente, como frios, carnes mal passadas, queijos e alimentos consumidos em bares, barracas e restaurantes.

*Por Gabryella Batista Nutricionista Oncológica ICB

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